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LUIZ DAMASCENO

 (Porto Alegre RS 1941) artista plástico, ator e diretor 

Cursou Artes Cênicas e Plásticas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul entre os anos de 1962 e 1967, tendo sido aluno de mestres em teatro como Eugênio Kusnet e Gerd Bornheim e artistas plásticos como Regina da Silveira, Ado Malagoli e Alice Soares. No teatro atuou com diretores como Ademar Guerra, Maurice Vaneau, Gerald Thomas, Mauro Mendonça Filho, Sérgio Ferrara, Bete Coelho, Bob Wilson, William Pereira, Otávio Martins, Jô Soares, entre outros, e tendo sido professor de interpretação na EAD/ ECA/USP em São Paulo por mais 25 anos. Conquistando ao longo de sua carreia dentro das artes, prêmios de pintura, de desenho, de cenografia, de figurino, de direção e prêmio SHELL de melhor ator.


 
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LUIZ DAMASCENO, O ACERVO MEMORALÍSTICO

Renato Rosa

(coautor do “Dicionário de Artes Plásticas no Rio Grande do Sul”)  

O acúmulo de referências ao talento de Luiz Damasceno remonta há décadas e para ser exato, um bom meio século desde a juventude dedicado às práticas artísticas. Artista múltiplo, desdobrou-se em sua já longa trajetória como cenógrafo e figurinista, mas grangeou notoriedade como ator obtendo no campo cênico honrosas premiações, premiações que também já o distinguiam em salões de arte nos anos 1960 em plena juventude quando então cursava a antiga Escola de Belas Artes da Universidade Federal de sua natal cidade de Porto Alegre onde foram seus mestres, dentre outros, a desenhista Alice Soares e a pintora Regina Silveira (abstracionista à época) e o jovem aluno recebe prêmio no Salão Cidade de Porto Alegre tradicional certame de arte moderna. Nesse período realizou série de retratos e consta um curso com o renomado pintor e gravador uruguaio Luis A. Solari. Na passagem dos anos 1960 para 1970 e após receber o troféu “O Aldeião” em três categorias teatrais e haver somado em seu currículo criações para montagens de Cervantes e Sófocles, Luiz Damasceno entendeu que sua arena local se tornara pequena e resolve trocar de praça mudando-se incialmente para o Rio de Janeiro e posteriormente fixando-se em São Paulo. A partir destes postos atua em televisão e cinema e em montagens consideradas definitivas - apesar da finitude dos espetáculos - aliando-se ao polêmico diretor internacional Gerald Thomas e sua Companhia de Ópera Seca representando em Berlin e Nova Iorque. E, mesmo ao longo desse percurso, Luiz Damasceno jamais abandonou o desenho e a pintura e hoje, na maturidade, e com mais tempo para dedicar-se ao ofício, percebe-se que essa raiz teatral lhe serve de fonte inspiradora. Os personagens que povoam suas pinturas são matéria de sonhos, descrevem cenas que nos remetem a cenas teatrais, circenses, trazem um humor carregado de cores densas, dramáticas e ao mesmo tempo evidenciam um equilíbrio, uma poética refinadamente desenvolvida. Talvez de seus antigos mestres tenha lhe restado a delicadeza remota do traço de Alice Soares, as manchas, as diluições abstratas de Regina Silveira e o surrealismo de Solari. Se isso ocorre, a mescla é tão sutil que não se sobrepõem, mas projeta - claramente - a riqueza de um universo com um acento pessoal fantástico que nos afirma seu estilo, estabelece sua linguagem pictórica. É um rico acervo memorialístico que emerge. Criado está o mundo de Luiz Damasceno e para isso valeu toda uma vida.

 
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por Wilma Legris

Do ponto de vista etimológico, “Luiz” significa “combatente glorioso”, “guerreiro famoso” ou “famoso na guerra”; esse nome vem do germânico Hloddoviko (Ludovico).

Para mim, o Luiz Damasceno lembra “Luz”, “Chama”, “Brilho”, substantivos que se originaram Lúcio(a), Lucila, lucíola, lume, cuja raíz latina é “lux”.

Vivendo por muitos anos longe desse artista, conheci pesoalmente apenas o pintor, mas tenho certeza que vocês o viram no teatro como um dos principais atores da Companhia de Ópera Seca, dirigida por Gerald Thomas, com quem trabalhou de 1986 a 1999.

Sei que ele fez parte do elenco da Missa Leiga,espetáculo que assisti pelo menos por três vezes sem saber quem era o Luiz, tanto no Teatro Ruth Escobar, como na igreja da Consolação; foi durante um período crítico da nossa história e houve muita perseguição da polícia aos membros da trupe.

Há alguns anos encontrei o Luiz Damasceno pelo fato dele habitar no mesmo prédio de dois amigos: o ator Paulo Hesse e um dos derradeiros diretores do IECC, Jorge A. Cintra Camargo; também cimentou a nossa relação o fato dele  ter grandes ligações com Renata Pallottini, da APL.

Longe dos palcos, encontrei ali na Vila Buarque, o artista plástico, que muito me comoveu como pessoa e como pintor.

Observem algumas de suas telas figurativas ou abstratas; muito coloridas enxergamos em algumas delas a problemática da situação de gênero, pautada em quadros de infâncias ameaçadas, amordaçadas e mudas.

Também podemos ver referências picturais em certos quadros; os macaquinhos em “Ciranda”, não seriam uma piscadela de homenagem à Matisse?

Sua “Trapezista” poderia ter sido uma criação de Chagall?

Siron Franco e Francis Bacon, discretamente, não se esconderiam no ateliê do Luiz no momento da sua criação?

Apesar do clima de introspecção e solidão dos seus personagens, encontrei muitos auto-retratos do meu amigo pintor, à maneira dos mestres da  Renascença.

Para compensar a rigidez das composições e dos temas nos deparamos com o humor ácido durante “O jantar”, literalmente canibalista e, sobretudo, na tela “Em frente”, onde a dondoca acompanhada do seu jacaré de estimação (Lacoste ou Louis Vuitton?) mostra-lhe os pobres personagens ao fundo, prestes a serem devorados…

"Wilma Legris ,  escritora. Radicada em Paris há várias décadas, edita o  blogue IECCmemorias.wordpress.com. Seu último livro,   Crime e castigo na Escola Caetano de Campos, foi lançado pela Editora Luna"



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