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A CONSTRUÇÃO DA FÁBULA

Dia após dia, ano a ano, Luiz Damasceno constrói uma lenda, como se Cronos não existisse. Assim, imune ao tempo, narra uma fábula sem fim, episódio a episódio, ilustres imagens que não se querem crônicas, mas pungentes registros de uma só existência. O legado de sua meditação é: eis o homem.

Esta fábula nos conta do sentimento de um ser que contempla a existência cotidiana com delicada melancolia e certa isenção. As cores do arco-íris, propriedade dos pintores, nos personagens. As ilusões, os sonhos, os desejos, e o louco desejo insaciável de afeto, a fantasia do domínio do destino, o som saudoso e suburbano do acordeom, e, em tudo, o movimento de uma sensação cósmica para a qual todas as coisas são simultâneas, concomitantes e interpenetrantes. Esta é a mente que contempla a si mesmo.

Não há escala para os personagens da pintura, pois são seres da fantasia e entre o registro do personagem e os seus sonhos, a única dimensão dos formatos é a intuída pelo artista. É um surrealista sem o surrealismo. Neste mundo só as flores são belas e fenecem. As pessoas e as cenas são eternas. É possível dizer que estamos diante de cenários sem paisagens, salvo se considerarmos que a vida cotidiana e humana registrada na sua integridade de materialidade e ilusão é um tipo de paisagem.  É um mundo que nos representa, todos estamos nele, mas é o mundo do seu autor, o artista Luiz Damasceno, e ele se constrói na criação permanente da fábula que, à semelhança dos mitos arquetípicos, é permanentemente reinterpretado.

A pintura e a escultura de Damasceno têm como tema a relação entre o sonho e a constatação do cotidiano. A vida inteira Luiz Damasceno construiu a sua própria lenda. Para um artista essa é a construção do ser. A obra de Luiz Damasceno é uma meditação. 

É interessante essa afirmação sobre a obra e a meditação, porque Luiz Damasceno tem uma diversificada vivência do processo de criação. Como respeitado ator trabalhou com diretores importantes, como Gerald Thomas e Bob Wilson, e sabemos como o ato contemporâneo de representar está vinculado ao método de Constantin Stanislawski no qual o ator trabalha com a memória. Posteriormente Stanislawski ampliou o processo incluindo a imaginação. Memória e imaginação ativadas. 

Nos Estados Unidos, país onde a representação é importantíssima devido à sua necessidade no teatro, no cinema, na televisão, nas séries, houve uma adaptação que foi conhecida como “O método”, com Lee Strasberg. No Group Theater, com Elia Kazan, Robert Lewis, Stella Adler (estudou com Stanislaswski, em Paris, 1934), e, em 1949, Stella Adler criou o Conservatory. 

Pois bem, como é evidente, este mergulho do ator na memória e na imaginação se transforma em exteriorização, relação com outros atores, relação com autores, relação com diretores, cenaristas, figurinistas e, seguidamente, em interação com tecnologias. É uma experiência criativa que, ao se exteriorizar, se torna coletiva.

Nas artes visuais o processo é o oposto. A interiorização do artista é um mergulho na solidão. E a exteriorização dessa solidão se dá num processo igualmente solitário e que, no seu resultado, é forçosamente original e insatisfatório. É impossível materializar a intuição na sua misteriosa grandeza. Permanentemente o artista sabe que ficou aquém do seu sentimento. O que o motiva, é claro, a tentar novamente. É desta maneira que as fases se sucedem e a obra se constrói. E que o artista valoriza sempre a sua fase mais recente.

Na construção de sua fábula da vida humana, Luiz Damasceno é capaz de vivenciar os dois processos simultaneamente. A introspecção de suas imagens é intensa e o seu fio condutor é o olhar e o sentimento da perecibilidade da existência humana. Pode ser dito que o artista Luiz Damasceno medita sobre a ilusão da permanência. 

O romance “Metamorfose” é a meditação da nossa época feita pelo profeta Franz Kafka. Ele trata, entre outras coisas, da inutilidade do homem não funcional. Em Luiz Damasceno o tema da metamorfose, do ser que se transforma em outro ser, do novo ser que conserva a memória do ser original, é a sua visão da forma adâmica, o homem, e do homem com os acréscimos de um inseto. A forma adâmica numa aberração, a forma adâmica num pesadelo. O pesadelo da forma. De repente há um ser com muitos braços, ereto, vertical, é homem e não é homem. É um inseto e não é um inseto, vagamente lembra que já teve a forma adâmica, é um ser vir-a-ser. Metamorfose, segundo Luiz Damasceno. Não é tão distante do homem na sociedade industrial e de alta tecnologia. O legado de sua meditação permanece: eis o homem.

A escultura e a pintura de Luiz Damasceno são coloquiais, é uma narrativa de seus dias, devido à esta característica narrativa tem proximidade com a literatura; trata do mundo próximo, mas o vê como protótipo. A vida intima, os habitantes da vila, a fantasia, o sonho, o mito, a lenda, o símbolo, uma crença absoluta na arte como último refúgio humano.  E como esperança de entender. A arte de Luiz Damasceno é uma arte autobiográfica, se considerarmos, é evidente, que a história de sua vida é um percurso do espírito.

por Jacob Klintowitz ​

Crítico de arte, curador de importantíssimas exposições, jurado de incontáveis certames, autor e editor de dezenas de livros, com milhares de textos produzidos para a imprensa, presença obrigatória no cenário da crítica de arte brasileira no último meio século, Jacob nasceu em Porto Alegre e se transferiu para o Rio e depois para São Paulo, onde desenvolve uma carreira das mais notáveis.